América Latina e Caribe nunca esquentaram tão rápido quanto agora, diz relatório da OMM
Funcionário da Coordenadoria Geral de Obras de São Paulo se refresca durante dia de calor intenso na capital. Marcos Serra Lima/g1 A América Latina e o Cari...
Funcionário da Coordenadoria Geral de Obras de São Paulo se refresca durante dia de calor intenso na capital. Marcos Serra Lima/g1 A América Latina e o Caribe estão esquentando no ritmo mais acelerado desde o início das medições, em 1900. É isso o que mostra o relatório anual "Estado do Clima na América Latina e no Caribe", divulgado nesta segunda-feira (18) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da ONU. O documento foi lançado em Brasília, no auditório Olacyr de Moraes, no Ministério da Agricultura e Pecuária. Para chegar a esse diagnóstico, a OMM dividiu os últimos 125 anos em quatro recortes de 30 anos e calculou em cada um deles a velocidade do aumento das temperaturas. O período mais recente, de 1991 a 2025, é disparado o mais quente. Na América do Sul, as temperaturas sobem 0,26°C por década, e na América Central e no Caribe, 0,25°C. O México lidera o ranking, com 0,34°C por década — mais do que o triplo do ritmo observado entre 1961 e 1990. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Vídeos em alta no g1 A temperatura média da superfície na região em 2025 ficou entre a quinta e a oitava mais alta já registrada. O autor principal do relatório é o climatologista brasileiro José Marengo, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). "Os sinais de um clima em transformação são inequívocos em toda a América Latina e o Caribe", afirmou Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, em comunicado. Ela citou desde a perda acelerada de geleiras e a elevação do nível do mar até a intensificação rápida dos ciclones tropicais, o calor extremo, as enchentes e as secas. Em 2025, ondas de calor com temperaturas acima de 40°C atingiram grandes áreas das Américas do Norte, Central e do Sul. Mexicali, no México, marcou 52,7°C, um novo recorde nacional. No Paraguai, Mariscal Estigarribia registrou 44,8°C, e o Rio de Janeiro chegou a 44°C. As temperaturas registradas na América Latina e no Caribe ficaram +0.40ºC acima da média. OMM O calor extremo, segundo a OMM, vem se tornando um problema crescente de saúde pública. A estimativa da agência aponta cerca de 13 mil mortes por ano associadas ao calor, em uma média de 17 países entre 2012 e 2021. Mas o próprio relatório admite que o número está subestimado, porque a maioria dos países não publica de forma sistemática dados sobre mortes em que o calor foi a causa direta. A OMM pede que esse tipo de informação passe a ser produzida com regularidade e integrada aos sistemas de alerta meteorológico. Chuvas extremas e seca O comportamento das chuvas mudou de forma desigual no continente, ainda segundo o relatório. Na média das últimas cinco décadas, os períodos secos ficaram mais longos e os episódios de chuva, mais intensos. No Brasil, o cenário é dividido. O Sul vem registrando aumento na chuva anual e enchentes mais frequentes, num padrão que se estende pelo Uruguai e pelo norte da Argentina. Já o Nordeste aparece entre as áreas que estão ficando mais secas no continente, ao lado do Chile central e de partes da América Central. Na Amazônia, o quadro é misto. As estações secas estão mais longas, mas, quando chove, chove com mais força. As secas também ficaram mais frequentes no sul e no leste da floresta. O ano de 2025 trouxe episódios graves em outros pontos da região. Mais de 110 mil pessoas foram atingidas por enchentes no Peru e no Equador em março. No México, chuvas em outubro deixaram 83 mortos. Junho foi o mês mais chuvoso já registrado no país — e, ainda assim, a seca chegou a cobrir 85% do território mexicano no auge da estiagem, com falta de água em lavouras e reservatórios. O aumento do nível do mar superou a média global. OMM LEIA TAMBÉM: Drama de baleia encalhada há semanas na Alemanha mobiliza protestos e levanta dilema sobre resgate; entenda Estrutura geológica gigante no deserto do Saara parece um 'olho' visto do espaço; veja IMAGEM 'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota' Oceanos mais ácidos e mais altos A América Latina concentra 8,8% do litoral do mundo, e o relatório dedica atenção especial ao que está acontecendo nas águas vizinhas. Em 2025, o pH da superfície do mar atingiu o nível mais baixo já registrado em grandes áreas do Atlântico e do Pacífico próximos à região — um processo conhecido como acidificação dos oceanos, causado pela absorção do gás carbônico emitido por atividades humanas. Houve também ondas de calor marinhas extremas no Golfo do México, no mar do Caribe e na costa chilena, episódios em que a temperatura da água fica muito acima do habitual por períodos prolongados, com impacto sobre corais, peixes e a pesca. E o nível do mar subiu mais rápido que a média global em trechos do Atlântico tropical e do Caribe, o que aumenta a pressão sobre comunidades costeiras. LEIA TAMBÉM: Onde está a Timmy? Libertação de baleia gera nova polêmica na Alemanha Por que Amsterdã proibiu qualquer propaganda de carne nas ruas ANTES e DEPOIS: imagem da Nasa mostra geleira na Antártida que recuou 25 km em tempo recorde Nova espécie de "fungo zumbi" é descoberta no Brasil